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TEXTOS PARA ESTUDO

Evaldo Alves D’Assumpção  - Biotanatólogo

Tanatologia é uma  palavra que vem do grego: Thanatos, o deus da mitologia que representa a morte e Logos, estudo. Portanto, objetivamente a Tanatologia é o estudo da morte. Que pode ser do ponto de vista antropológico, filosófico, religioso, médico, psicológico, etc. etc.

Em 2003, revendo a evolução desse trabalho, percebemos que o seu alcance ía muito além da morte (Thánatos). Na realidade o seu campo de atuação era o mundo dos vivos, com aqueles que estavam, de alguma forma, relacionados concretamente com a morte, mas estavam vivos. Se falávamos - como ainda falamos - sobre questões específicas do ato de morrer e até mesmo sob o após-morte em diversas percepções confessionais, era tudo voltado para ajudar aos que estavam vivos, a lidar com a morte e suas consequências. Assim sendo, o nome Tanatologia passava a ficar muito restritivo, uma vez que traduzido ao pé-da-letra seria "O estudo da morte".  Substituimos então esse nome, pelo bem mais abrangente: BIOTANATOLOGIA. Onde Bio significa VIDA, Tánatos, MORTE e LOGOS, Estudo. Portanto, Biotanatologia significa o estudo da vida, pela ótica da morte. Em outras palavras, é o trabalho que fazemos com os que estão vivos, utilizando tudo aquilo que aprendemos com os que estavam morrendo, para dar aos vivos uma melhor qualidade de vida, enquanto vida tiverem. É o trabalho que se faz com enlutados, com pessoas vítimas de grandes traumas (Estresse pós-traumático), com enfermos graves, com profissionais que lidam frequentemente com a morte, atenuando o impacto que esse trabalho produz neles. De um trabalho exclusivo com os que estavam morrendo, ampliamos nosso leque de atuação para inúmeras outras situações. O que nos permite  afirmar que a Biotanatologia é uma enorme passo à frente, dado pela Tanatologia, que passa a pertencer à história.

Pode-se dizer que o estudo da morte  surgiu com o próprio Homem. Desde nossos ancestrais mais remotos, sempre nos preocupamos com a morte.
Todas as grandes civilizações que nos antecederam, tinham na morte o ponto central de suas ações e reações. Por mais que rejeitemos a idéia da morte, ela permeia inexoravelmente a nossa vida.  A sabedoria popular já diz: “Morre-se como se vive”.  E é por isso que afirmamos não existir “medo da morte” e sim “medo da vida”. Quem vive a vida em sua plenitude, tem a morte como algo natural e, mesmo não a procurando ou desejando, aceita-a com tranqüilidade quando chega.
E quando falamos de morte, estamos falando da extinção da vida física, espácio-temporal, do indivíduo. Ou melhor ainda, da expressão biológica de nossa individualidade. O ser humano, em sua individualidade, não se extingue. Ele se transforma, da mesma forma como se transformou ao nascer. De onde viemos, para que viemos, para onde vamos? São perguntas que freqüentemente nos assaltam e na grande maioria das vezes preferimos ignorá-las, considerando tais reflexões similares à discussão a respeito do “sexo dos anjos”.
Entretanto, nada é mais essencial à nossa própria existência do que refletir e buscar resposta para tais perguntas. Certa vez assistimos, em um filme intitulado “A Estrada”, um diálogo maravilhoso entre a personagem Gelsomina, mulher simples e tomada como companheira por um grosseiro artista de circo mambembe, com um dos palhaços da “troupe”. Ela, desencantada com a vida que levava, aparentemente sem qualquer sentido, chorava sentada à beira do picadeiro armado a céu aberto quando o palhaço, acercando-se dela, procurou mostrar-lhe a importância de simplesmente sermos o que somos. Dizia ele, tomando um punhado de areia nas mãos: “Veja este punhado de areia, cada grãozinho é pequeníssimo. Especialmente se você olha para as estrelas no céu. Entretanto, eles são de uma enorme importância - ainda que não saibamos qual esta importância - pois assim como as estrelas, jamais existiriam se não fossem tão importantes. E, se eles assim tão pequenos, são tão importantes, o que dirá de você, pessoa humana!”Talvez as palavras exatas deste diálogo não tenham sido estas. Afinal há tantos anos assistimos tal filme. Entretanto o sentido daquele diálogo, que tanto nos marcou, era exatamente este. Todos nós somos importantíssimos pois, se não o fôssemos, jamais teríamos sido criados, jamais ocuparíamos um espaço tão importante como é este que cada ser humano ocupa no cosmo, mais especificamente no planeta Terra! Mas, apesar disto, como compreender que tantas pessoas não atinam com esta verdade tão incrível? Certamente porque se recusam a buscar respostas para aquelas três perguntas fundamentais em nossa vida, em nossa existência.
Diante de acontecimentos políticos, econômicos e sociais tão deprimentes ou desesperadores, o homem olha em torno de si e não encontra uma razão para viver. Sequer encontra a si próprio para justificar-se como ser humano, presente e ocupante de um vital espaço do universo. Talvez por isso mesmo não justifica também a vida alheia e tantas coisa faz para destruir a vida, muitas vezes sob a desculpa de defender a sua própria vida. Que entretanto, ele também não respeita.
A morte, nessas circunstâncias, assume um papel de solução, como se simplesmente sair da vida, retirar a vida, deixar a existência, significasse livrar-se de tudo, abandonar questionamentos sufocantes, libertar-se da opressão da própria realidade de ser.
Por isso acabamos por aceitar e afirmar ser a morte a extinção do indivíduo. O fim de tudo, o voltar-se para o nada. A aniquilação total do ser humano.
Mas isso não corresponde à realidade. Nossas decisões não transformam o falso em verdadeiro, não dão realidade ao imaginário.
A história mostra e nela devemos ler nossa realidade, que o homem, na sua mais antiga forma conhecida - o homem de Neanderthal - já tinha consciência intuitiva da transcendência do ser humano. De todos os animais mortos, o único a que dava sepultura era aos seus semelhantes. E, mais do que isto, enterrava seus mortos em posição fetal - como preparado para um renascimento - acompanhados de objetos de uso pessoal, deixando implícita a  mensagem de que acreditava em uma existência posterior. Afinal, ele se preocupava em proporcionar aos que morriam, condições para prosseguir sua vida em outras dimensões.
A religião, cujo significado é “religar”, ou seja, religar o temporal ao a-temporal, o espacial ao a-espacial, o material ao espiritual, sempre foi um elemento indispensável à própria essência do homem. Mesmo quando materialista, voltado exclusivamente para a obtenção do “mais ter”, ele sente dentro de si a chama do transcendental, cedendo por vezes pequenos espaços para superstições e amuletos que nada mais são do que manifestações desta transcendentalidade que lhe incomoda, porque não respeitada. Que lhe alcança especialmente nos sofrimentos e nas dores porque aí ele se vê diante da total fragilidade do homem-matéria cultivado no dia-a-dia, porém tão vulnerável, tão destrutível, tão perecível.
Passado aquele momento, esquece-se da realidade sutilmente tocada, fecha os olhos e o coração ao incompreensível e volta-se, uma vez mais, aos fatos tangíveis com a razão, com a ciência dita exata, com a frágil lógica das sociedades capitalistas e materialistas, e em outros lados, dos utópicos ideais comunistas. Até que outro momento lhe toque, uma vez mais, a chama da transcendência que bruxulea, enfraquece, mas nunca se apaga no interior de cada um, pois é ela a única força que realmente mantém vivo cada ser humano.
Neste contexto a negação da morte - ponto de contacto com a eternidade que se busca negar - se torna de fundamental importância para a própria sobrevivência do materialismo que tão fortemente escraviza o homem.
Vivemos pois em uma sociedade, em uma cultura onde se nega a morte.
Negamos a morte quando nos recusamos a falar dela. Quando minimizamos a sua importância como centro de reflexões e taxamo-la de assunto mórbito, inadequado para qualquer confabulação, seja ele com que objetivo for.
As  poucas vezes que nos permitimos falar da morte, são aquelas em que não somos diretamente atingidos por ela mas, até mesmo protegidos pela sua presença. Em outras palavras, quando defendemos a pena de morte, o aborto e a eutanásia.
Pena de morte que se destina aos criminosos que nos ameaçam, que se propõem a destruir os castelos que construímos, atingir “nossas” famílias e “nossas” propriedades. Julgando-nos “donos”de tudo que acreditamos possuir, buscamos a proteção de “nossos” tesouros ainda que a custa da vida de outros. Não importa o porque daquela ação: fome, miséria absoluta, contrastes aviltantes entre mansões e barracões, uma absurda má distribuição de renda.. Ele, o marginal, merece a morte. A morte dele. Não a minha, mesmo que, de repente, eu me torne mais nocivo e destruidor do que o assaltante que leva a bolsa ou mesmo mata para roubar. Uma indústria poluente, sem filtros ou medidas de segurança, mata, destrói, inutiliza seres humanos em proporções infinitamente maiores do que um assaltante.  Um político, uma autoridade que desvia vultosas verbas para suas contas ocultas, retira de comunidades inteiras os recursos necessários à saúde, a habitação e ao saneamento básico. Condena pois à morte, centenas, milhares de pessoas.  Mas isso não vem ao caso. Marginais, merecedores da pena de morte, são eles, os que assaltam e estupram. Merecida é a morte deles. Não a minha...
O aborto refere-se à minha proteção, se ocorre uma gravidez indesejada. É o outro quem deve morrer, não eu. Aquele ser que nem sequer tem forma humana, principalmente porque não o vejo. Guardamos e protegemos a vida que vemos, mas nada nos custa destruir a vida que não vemos. A morte do outro, não a minha ...
Na eutanásia exercitamos nosso lado caritativo. Não é possível deixar alguém sofrendo tanto. É preciso que algo seja feito para abreviar seus sofrimentos. Sua morte. Morte com dignidade. Dignidade, quantos crimes se cometem em seu nome! Já dizia alguém: “Acho que a eutanásia é importantíssima e deve ser aplicada, sempre que necessário! Mas... desde que  não seja eu, o eutanasiado!” Morte alheia, não a minha...
Negamos a morte, sempre que ela se refere à nossa própria realidade ou daqueles a quem julgamos posse nossa. Este sentido de posse é que caracteriza uma forte motivação para a negação da morte: O apego.
Somos apegados a tantas coisas. A objetos e cargos, a títulos e posições, a pessoas e a idéias. Dizemos “minha” ou “nossa”, como se donos fôssemos de alguma coisa. O sentido de propriedade absoluta impede ao homem o raciocínio livre e descompromissado para compreender o seu próprio sentido de vida.
Folheando as páginas da história vamos encontrar tantos exemplos extremos de apego,especialmente ao poder. Homens públicos que perderam a sua vida num gesto final e desesperado para manter, preso entre seus dedos crispados, os cargos que lhe davam o fugaz e ilusório sabor do poder. Morreram para tentar sobreviver em seus cargos.
Em menores proporções, mas em idêntica gravidade, encontramos mães que se anulam totalmente como pessoa, como esposas, para cultivarem o apego a seus filhos. Querem saber onde vão, como vão, onde estão e como estão. Apavoram-se por alguns minutos de separação pois temem perdê-los. Perder o “meu” filho! Mal sabem que a esmagadora maioria dos acidentes graves com crianças, ocorrem exatamente quando estão bem próximas da mãe!
Outras se apegam aos seus companheiros. Nada fazem sem eles, tentam por todos os meios controlá-los a seu modo. Até mesmo desenvolvendo doenças que exijam continua presença de alguém a seu lado. E, muitas vezes, acabam morrendo sozinhas, pois sufocam de tal maneira as vítimas de seu apego que essas terminam se escoando por entre os dedos de quem tanto as esmagam, num aperto infindável de mãos ávidas de posse.
Mas temos também o apego pela própria auto-imagem. Acreditamos sermos algo que verdadeiramente não somos, colocamos máscaras para parecermos o que pensamos ou fantasiamos ser e acabamos vítimas desta auto-imagem. Perdemos nossa própria identidade, confundimos-nos com as máscaras colocadas e já não conhecemos nosso próprio “EU”. O apego a auto-imagem criada sofre reforços pelos circunstantes que estimulam a manutenção das máscaras. Aplaudem cada atitude irreal, louvam a imagem criada e acabamos por acreditar ser aquela fantasia a nossa própria realidade. Entretanto essa máscara não tem respostas para as três perguntas básicas. Ela não tem de onde veio, para o que veio nem para onde vai. Pois afinal ela é fumaça, é ilusão. E se me confundo com ela, também eu ficarei sem as respostas, sequer farei mais tal questionamento e a vida passa a ter sentido somente no conservar das máscaras. Vivo na  ilusão de que, se perdê-las, perderei a minha própria identidade, esquecido de que ela é quem cobre o meu verdadeiro EU.
Assim a morte deve ser negada pois  se torna incompatível com o apego `a minha própria auto-imagem. Que é egoísta e insaciável. Tudo quer para si e nada deixa para os outros, se não migalhas. Tudo justifica, tudo explica e sua lógica se torna a razão única para todos os fatos.
Muitos chegam ao paradoxo do suicídio quando, fartos da auto-imagem insaciável, decidem por extingui-la e, querendo matá-la, matam a si próprios, já que não mais conseguem separar sua própria realidade das fantasias criadas pela auto-imagem, pelas máscaras que constantemente trocava para preservá-la.
Apesar de todo apego que domina nossa existência, dentro de nós, dentro de cada ser humano, existe a consciência da finitude de todas as coisas, da total impermanência de tudo o que existe neste bloco do espaço-tempo. Ora, se tudo é impermanente, exceto a própria impermanência de tudo, então de que vale o apego? Grande falácia ele é, e disso temos consciência no mais profundo de nós mesmos. E é exatamente por isso que uma forte e irresistível luta ocorre dentro de cada ser humano, resultando em seu exterior nas inúmeras doenças ditas psicossomáticas. São os destroços da luta do apego contra a consciência da transcendência que estigmatizam o corpo físico, causando-lhe tantos males, tão característicos dos que cultivam, com persistência, o sentido de posse, ilusório e destrutivo.
A negação da morte faz parte também de um contexto alienador, onde a sociedade procura impor aos seus membros uma permanente condição de alienação que lhe permita dominar a todos, conduzindo-os a um estilo de vida compatível com os objetivos básicos dessa mesma sociedade.
Tomando como exemplo a nossa realidade, observamos que vivemos em uma estrutura sócio-econômica onde cada pessoa vale, não pelo que produz, mas essencialmente pela sua capacidade de consumo. Interessa pois, a essa sociedade, pessoas ávidas de comprar, de adquirir novos bens, não importa se deles necessitam ou não. O importante é comprar, é possuir. E encontramos explicações bastante racionais para justificar tal fato: se não houver consumo, as fábricas não poderão produzir e haverá o desemprego. Simplista mas convincente à primeira visão. Para pessoas com preguiça mental, acomodadas diante de seus televisores massificantes que lhe dizem o que, como e onde fazer, esse tipo de argumento é decisivo. É convincente. Por isto se fazem necessárias pessoas cada vez mais alienadas. Gente que não pensa, mas que acredita pensar.  Assim, afirmando sempre: “Não vamos falar da morte, mas sim da vida!” Como se fosse possível falar de uma sem se envolver totalmente com a outra... Mas isso veremos mais adiante. Quando falamos de uma sociedade que valoriza quem consome e não quem produz,  pode parecer um tanto inverídico. Mas tomemos o exemplo de um pedreiro que trabalha, de sol a sol, na construção de um clube de luxo. Ninguém pode dizer que aquele não é um homem que produz. Terminada a construção, inaugurado o clube, se aquele pedreiro pleitear sua admissão como sócio, jamais será aceito. Por razões demasiadamente óbvias. Se entretanto, no dia seguinte esse mesmo pedreiro for premiado numa Sena ou Loto acumulada, recebendo milhões em prêmio, deixará imediatamente de trabalhar - pois este é o sonho de quantos arriscam palpites nos diversos jogos oficiais ou não: parar de trabalhar, de produzir - e, sem sombra de dúvida será admitido alegremente naquele clube que o rejeitou enquanto era um homem de trabalho, de produção, porém de baixo ou nenhum poder de consumo.
Isso caracteriza uma sociedade alienada, de falsos valores e geradora de uma enorme insatisfação de vida, que leva milhões a sofrimento, mesmo que esses milhões de seres não sejam capazes de identificar o vírus que corrói a felicidade individual e coletiva. Incentivar a alienação, manter a alienação, é peça fundamental do esquema que orienta nossa sociedade.
E o que tudo isto tem a ver com a negação da morte? A verdade é que, ao se debruçar sobre essa realidade inexorável da vida humana, o homem descortina novos caminhos, tomando uma maior consciência de vida. Questionar o sentido da morte, é antes de mais nada questionar o sentido da vida. E, ao fazê-lo, as amarras da alienação, tão cultivadas pelo esquema que nos rege, começam, uma a uma, a se desatar, permitindo ao ser humano que reflete, alçar vôos nunca antes imaginados. E, do alto desses vôos, vislumbrar realidades que irão conflitar, irremediavelmente, com o “status” a que antes estava submetido, atrelado pela alienação que o dopava.
Refletir sobre a morte e conseqüentemente sobre a vida, é a ferramenta eficaz que rompe nossos grilhões e nos levam a conhecer melhor a vida. E, conhecendo-a, vivê-la na plenitude dos reais valores que, ao invés de frustrações, tristezas e sofrimentos sem sentido, nos trazem e nos conservam na paz do genuíno viver. Paz entretanto que não é alienação, não é descaso por tudo o que acontece em volta de cada um, mas, muito pelo contrário, é a paz de luta, é o comprometimento com a felicidade própria tanto quanto com a do próximo, é a busca verdadeira de uma realização somente alcançável quando rompidas as barreiras do espaço e do tempo.
Em sua ânsia de realizar o vôo perfeito, Fernão Capelo Gaivota tentou métodos e esquemas, sem nunca consegui-lo. Certa feita, cansado de suas buscas que não alcançavam a realização de seus sonhos, consultou o Gaivota Ancião, cuja idade lhe proporcionava os conhecimentos e a sabedoria indispensáveis à informação que Fernão Capelo buscava ansiosamente. E o ancião lhe disse: “O vôo perfeito não é voar a 100, 500 ou 1000 km por hora, mas sim estar aqui e lá.”
Nesse ensinamento, está a essência da busca realizada por Fernão Capelo que, no vôo perfeito buscava, metaforicamente, a felicidade. Em última análise, o que todos os homens buscam: a verdadeira felicidade. Que somente existe quando nos desligarmos dos obstáculos causados pelas dimensões limitantes do espaço-tempo.
Mas isso não significa uma apologia do suicídio. Se não nos cabe  decidir como e quando  entrar no bloco espácio-temporal do universo, também não nos cabe decidir como e quando deixá-lo. O ser humano somente toma consciência disso no  momento da fusão espermatozóide-óvulo que lhe deu origem. Pois é esse o exato momento em que ficam estabelecidas todas as características definitivas que somente àquele específico indivíduo são capazes de gerar. A partir da fusão de um determinado espermatozóide - um entre 300 milhões de uma única ejaculação - e um determinado óvulo - um de tantas oportunidades mensais - somente um determinado indivíduo será estabelecido. E ele será único em toda a história da humanidade. Naquele exato momento, seu sexo, sua cor de pele, seu temperamento, a cor de seus olhos, tudo o mais que será o seu corpo e sua mente, ficam estabelecidos de forma definitiva. Tudo o que ocorrerá depois, será apenas uma movimentação evolutiva dos caracteres já determinados. Portanto, talvez ali mesmo ele toma consciência de sua realidade universal, do fato de ser parte integrante e fundamental de todo o cosmo a que pertence. E ali mesmo ele começa uma jornada cujo final não lhe é dado saber quando irá terminar. Suas células recebem uma programação de tempo de vida e portanto existe no homem, intrinsecamente, a certeza de sua finitude. Ele “sabe” que não será imortal. Mas não cabe ao homem, já que não lhe coube decidir nada de seu início, decidir a respeito de seu fim. Cabe, isto sim, viver cada dia, cada momento que lhe é dado viver, na realização, a mais plena possível, do seu sentido de vida que, em última análise é a busca da verdadeira e definitiva felicidade. Com certeza uma nostalgia de nossa origem, no seio do  Criador de tudo.
Podemos dizer que o homem tem um tropismo incontrolável pela felicidade. Vivemos buscando a felicidade. Entretanto, nas nossas limitações intelectuais e emocionais, quase sempre buscamos essa felicidade em caminhos inadequados. Confundimos prazer com felicidade. Acreditamos que a sensualidade e, especialmente a sexualidade e a glutonaria, podem nos fazer felizes. Fugaz e frustrante felicidade! Um momento de prazer, um pouco ou quase nada de felicidade e muitas vezes prolongada infelicidade! Em nossa caminhada pela vida material que aqui nos é dado viver, mister se faz que procuremos sempre realizar cada momento em plenitude. Muitos se apegam ao passado, lamuriando o tempo que passou, o ontem em que foi tão feliz. Não percebem que essa felicidade é passageira, extingue-se e dela só restará a lembrança. Outros, passam a sua vida a sonhar com o futuro. Nada fazem no dia de hoje porque estão fixados no amanhã, quando tantas coisas pretendem fazer. Entretanto, o amanhã nunca chega. E seus planos nunca se realizam. São assim, constantemente infelizes.
Só uma coisa nos é real: o aqui e agora. Esse momento que é o nosso único e sutil contacto com a eternidade. Momento que devemos viver totalmente, pois só assim estaremos realizando o nosso sentido de vida.
Contudo Isto não significa desprezar as lições do passado, nem tão pouco se desleixar em programar o futuro. O que aprendemos ontem, nos faz melhor viver o dia de hoje. A perspectiva do que iremos fazer no contínuo de nossa vida, enquanto a tivermos, são os planos que faremos para o futuro. Não utópicos sonhos que nunca procuraremos realizar - exatamente por serem utópicos - mas a organização de vida, indispensável para um melhor aproveitamento do tempo, enquanto nele estivermos.
Portanto, se temos uma vida no bloco espácio-temporal, não nos cabe desertarmos dela, seja pelo suicídio seja por outras formas de desligamento do viver: drogas, álcool, cigarros, etc, mas realizar tudo aquilo que nos for dado realizar, no momento em que isto nos for concedido. Somente assim,  quando nos virmos diante da morte, poderemos dizer: “Nada tenho a lamentar de coisas que deixei de fazer no passado; nada tenho a lamentar do que ainda não fiz no futuro; tudo o que fiz foi feito no momento em que me coube realizar. Minha vida foi vivida plenamente. Minha vida está sendo vivida plenamente. Pode terminar a qualquer tempo”.
Trabalhando com pacientes terminais, Elizabeth Kubler-Ross, a precursora da Tanatologia, e depois dela tantos outros autores e em nossa própria experiência observa-se que, conforme diz a sabedoria popular a respeito do paciente terminal: “Ele está desenganado”, realmente ele o está. Já não vive como nós, que nos julgamos sadios e em plena vitalidade, totalmente “enganados”. Quando uma pessoa se vê diante de sua própria morte, toda a realidade da vida se torna numa clareza cristalina. Já não se prende a tabus ou preconceitos. As regras sociais, tão rigidamente impostas aos “vivos”, a ela já não mais se aplicam. Tomam atitudes, dizem coisas, expressam emoções que em suas vidas muitas vezes não tiveram coragem de tomar, de dizer. Uma senhora, criada desde menina dentro de padrões excessivamente rígidos, havia se casado e, mercê de sua educação, jamais se permitira expressar, principalmente por atos físicos, seus sentimentos por seu marido. Amava-o em silêncio e passivamente, tal e qual lhe havia sido transmitido em sua infância e juventude. Sobreveio-lhe porém uma doença incurável e, para a sua felicidade, ao invés dos CTIs frios e insensíveis, ao invés dos quartos isolados dos hospitais, foi lhe dado passar os últimos dias em sua casa, com sua família. Numa noite, preparando-se para deitar, ela subitamente abraçou e beijou carinhosamente o seu marido que, diante do inusitado ato, ficou perplexo e sem reação. Nada disse porém e foram dormir. Na manhã seguinte, ao acordar, o marido encontrou sua esposa morta, a seu lado. Sua face tranqüila demonstrava ter morrido em paz.
Durante tantos anos aquela mulher conteve seu desejo de demonstrar fisicamente, por iniciativa própria, o quanto amava o seu marido. Presa a preconceitos e tabus, certamente sofreu por não poder realizar o que desejava. Ao se ver porém diante da morte tornou-se “desenganada” e, livre dos preconceitos, realizou seu sonho, permitindo-se então morrer em paz, já que nada mais tinha a lhe prender com coisas inacabadas, no bloco espácio-temporal.
Muitos outros casos semelhantes encontramos ao trabalhar com esses pacientes, o que faz da Tanatologia um constante aprendizado, uma enorme lição para a vida, nunca uma mórbida escolha profissional, como querem muitos que desconhecem tais fatos e que freqüentemente engrossam as fileiras dos alienados, dóceis figurantes passivos de uma sociedade opressora.
Dentro desse aprendizado mantido através do contacto com os pacientes terminais - nome aliás bastante impróprio já que terminais somos todos nós, independentemente de sermos ou não portadores de doenças graves e incuráveis - observa-se que muito mais podemos aprender, especialmente no que diz respeito a uma melhor qualidade de vida.
Diz-se, com muita propriedade, que aqueles que têm medo de morrer na realidade têm medo é de viver. Nada mais correto. Somente aquelas pessoas que tudo temem na vida, que nada realizam porque estão sempre preocupadas (pré-ocupar= ocupar antes da hora) é que realmente temem a morte. Afinal, tantas coisas lhes restam a fazer - já que quase nada fazem, com medo de perder, de não dar certo - que, ao se verem diante de um tempo para viver agora bem limitado, descobrem que já não podem mais realizar tudo aquilo que sonharam, mas nada fizeram para concretizar. Vem então o desespero, o pânico. E para isso, não é necessário descobrir-se com uma doença grave. Basta que alguém bem próximo de nós venha a morrer, ou então que vejamos a morte de alguém, para que todo este medo seja libertado dentro de nós. Afinal, se alguém semelhante a nós mesmos morreu,  também nós estamos sujeitos a essa mesma situação, e sabe lá quando! Poderá ser daqui a alguns anos, mas também poderá ser amanhã, quem sabe hoje mesmo! E ainda temos tantas coisas que gostaríamos de fazer! Não  incluímos nesses sonhos irrealizados,  as fantasias utópicas, coisas que estão totalmente fora de nossa realidade. Referimo-nos tão somente àquilo que podemos fazer, que temos todas as condições para realizar, mas que, por comodismo ou por alienação, não fazemos. Vamos deixando para depois, um depois que nunca chega!
Citamos por exemplo o jovem ou a jovem que passa horas e horas em frente a uma televisão, alternando novelas com filmes enlatados, que nada têm a ver com nossa realidade, ao invés de sair em busca de trabalho, de estudo ou de uma convivência sadia com os amigos. E quando em rodas de conversa, falam do vazio existencial em que se encontram, da depressão em que estão mergulhados, da falta de sentido para a vida, não se dão conta  das horas desperdiçadas, especialmente sendo alimentadas por fantasias impossíveis, estimulados por sonhos consumistas apresentados em cores brilhantes pela magia eletrônica da TV ou nos devaneios da Internet..
A morte é uma perda. Aliás a maior perda que podemos sofrer em nossa vida física. Mas não é somente a morte,  a perda que sofremos. Constantemente em nossas vidas, sofremos perdas mais ou menos importantes. E de acordo com o modo com que as enfrentamos, poderemos crescer interiormente ou aumentar nossos sofrimentos, nossa decepção com a vida. Cada perda significativa que sofremos, é uma morte psicológica que vivemos. Por isso, se aprendermos a conviver com a nossa morte física, com muito mais facilidade lidaremos com as mortes psicológicas que teremos no decurso de nossa vida. E, ao invés de ficarmos maldizendo cada revés que sofrermos,  superaremos tais situações, conquistando novas forças e novos meios para superar outros reveses que, naturalmente, irão nos acontecer no futuro.
Para melhor compreendermos tais fatos, devemos abordar um importante capítulo das descobertas de Kubler-Ross, que é denominado “as cinco fases”.
Trabalhando com pacientes terminais Kubler-Ross estabeleceu alguns princípios baseados em sua experiência longamente vivida com esses pacientes. O primeiro deles, diz respeito ao fato de que, todas as pessoas portadoras de uma doença grave, sabem de seu mal. Não é necessário que ninguém lhes fale explicitamente sobre sua moléstia, bastam as informações que essas pessoas recebem de seu próprio organismo e também aquelas informações que lhes são passadas indiretamente, por todos os que os cercam. Nosso corpo tem permanente consciência de tudo o que se passa dentro dele. Sempre estamos recebendo mensagens a respeito das alterações que surgem em nosso organismo. A mulher  geralmente sabe quando vai ficar menstruada ou quando ficou grávida. Seu corpo lhe fala. Todos nós sabemos quando estamos para ficar gripados. Afinal, já estamos com o vírus da gripe circulando em nosso sangue! Entretanto, tão alienados nos encontramos que tais mensagens passam freqüentemente despercebidas e só tardiamente descobrimos que alguma coisa importante está acontecendo em nosso corpo. Uma doença grave envia constantes “mensagens” à nossa consciência manifestando a sua presença. Enquanto nos mantivermos em estado de “consciência dopada” pelos estímulos a que constantemente somos submetidos, sem dar qualquer atenção a nós mesmos, essas “mensagens” não serão captadas ou compreendidas. Mas quando por qualquer razão - e um estado precário de saúde que nos derruba num leito é uma destas razões - passamos a nos observar melhor, essas mensagens são captadas e compreendidas e então saberemos o que se passa em nosso organismo. Obviamente que poderemos não saber o nome da doença ou suas características, mas a sua gravidade e a sua possível evolução para a morte, serão claramente percebidas. Por isso, o clássico comportamento médico de negar ao paciente o seu diagnóstico, é uma encenação sem qualquer sentido. O próprio paciente já sabe que está doente e a gravidade de seu caso.
Por outro lado o comportamento dos familiares, evitando certas conversas, entrando em crises de choro quando o paciente faz alguma referência a um futuro mais tardio, quando pela lógica médica ele já não estará vivo, os olhos vermelhos dos acompanhantes, as conversas furtivas, tudo estará “falando” do verdadeiro estado de doença daquela pessoa. Os remédios, cujas caixas ou bulas são escondidas, os tratamentos complexos e  específicos para determinadas doenças terminais, tudo isso irá reforçar as “mensagens” internas recebidas pelo paciente, confirmando suas suspeitas.
Quando esse paciente pergunta se está com alguma doença grave, e o médico e os familiares se apressam em dizer que não, o que realmente está acontecendo é que aquele paciente está apenas buscando um espaço para falar de seus medos, de suas angustias a respeito da morte que se aproxima. Mas, na fantasia de que ele não sabe nada, médicos e familiares apenas fecham o espaço de que ele necessita, estabelecendo então com o paciente o jogo do “esconde-esconde”, onde o médico “esconde” do paciente a sua doença, a família também “esconde”e o paciente, incapaz de interromper aquele jogo, nele entra “escondendo” também que já sabe de seus males e que apenas deseja falar sobre ele. Neste jogo, não existem ganhadores mas somente perdedores.
O médico perde uma ótima oportunidade para tratar a doença com total liberdade e colaboração do paciente, a família perde a oportunidade de estabelecer um ambiente tranqüilo e sem mentiras e o paciente perde a oportunidade de evoluir tranqüilamente pelas fases que iremos descrever a seguir e que são muito importantes para um final  em paz para todos, tanto para os que partem como para os que ficam.
Obviamente que isso  não significa que se deve chegar diante de um paciente terminal e falar, fria e diretamente, tudo aquilo que está acontecendo com ele. O importante é que, tanto os profissionais de saúde quanto os familiares estejam preparados e com sensibilidade suficiente para perceber quando o paciente tiver necessidade de falar de sua doença, abrindo para ele todos os espaços necessários, sem fechá-los através de uma resposta simplista: “Deixa de bobagem, você não tem nada! Está ótimo!”. Coisa que todos sabem não ser verdade.
Sempre haverá um momento em que o paciente buscará falar de seus medos, de suas fantasias em relação à doença e a morte. O papel de quem lhe escuta deverá ser exatamente este: o de escutar com todo o interesse e disponibilidade, nunca mentindo sobre o que está acontecendo, para não causar mais sofrimentos a quem já está sofrendo bastante.
Muitas pessoas dizem que não têm coragem de contar a uma pessoa a doença que ele tem porque ele poderia se matar,  sabendo da verdade. Isto é pura fantasia.  Nas estatísticas de suicídio, a menor causa para o auto-extermínio está exatamente nessa situação. E quando isto ocorre, provavelmente será porque a pessoa, sabendo de seu mal, não teve a adequada assistência psicológica que lhe permitisse superar aquela fase. Em seu desespero, no auge de sua raiva contra a situação, acaba por se matar. Verdadeiro paradoxo, uma pessoa se matar porque vai morrer...
Para melhor compreender tudo isso e melhor poder ajudar a estes pacientes, é necessário conhecer as cinco fases descritas por Kübler Ross.
Alguns estudiosos têm deixado de valorizar esse modelo contudo não se pode negar que, apesar de novas contribuições terem ampliado a compreensão do enfermo terminal, as cinco fases ainda continuam tendo  uma grande importância didática.
Quando uma pessoa toma consciência de uma doença terminal, ela vive, inicialmente, a fase da NEGAÇÃO. “Não, não é possível! Isto não pode estar acontecendo!” Geralmente os familiares são os primeiros a conservar o paciente nesta fase, quando reafirmam: “Realmente isto não está acontecendo! Os exames devem estar errados!”
A fase da negação é um momento importante pois funciona como um “para-choques” que ajuda a reduzir o impacto da notícia. Entretanto, permanecer na fase da negação é ruim pois impede a busca de tratamento adequados, cria uma resistência a tudo o que é indicado para o paciente. Devemos compreender a pessoa que vivencia esta fase, dando-lhe apoio mas nunca reforçando sua a permanência na negação.
Em seguida, vem a fase da RAIVA, caracterizada pela pergunta: “Sim, mas por que eu?!” A pessoa já admite sua doença mas questiona por que foi ela a atingida pelo mal. Nesta fase, a agressividade pode caracterizar o quadro e esses pacientes se tornam irrascíveis, difíceis mesmo de se lidar com eles. Freqüentemente ouvimos o pessoal da enfermagem e mesmo alguns médicos se referirem a alguns terminais como “grosseiros” e “mal-educados”. Mas esse comportamento quase sempre tem a ver com o momento psicológico vivido por estes pacientes e não com outros problemas. Principalmente quando a eles não é aberto espaço para falar de suas angustias, mais agressivos eles se tornam pois são obrigados a “engolir sapos” sem condições de colocá-los adequadamente para fora. Fazem-no apenas através do comportamento agressivo que adotam e até mesmo de agressões físicas.
Numa sociedade tão repressiva como a nossa, onde a expressão das emoções é sempre coibida: “não chore!, seja forte!”, a raiva “engolida” é sempre mais violenta quando exteriorizada de uma vez. Uma coisa é certa: “Emoção sem expressão vira depressão”. E depressão pode virar câncer e até matar!
Seguindo-se a esta segunda fase vem a NEGOCIAÇÃO, quando a pessoa já consciente de seu mal e de que é ela mesma a atingida, procura através de promessas, de orações, livrar-se de tal processo. O mesmo Deus que na fase da raiva foi questionado com frases como “se Deus existisse eu não estaria assim!”, agora volta a existir, recebendo mil ofertas em troca de uma cura milagrosa.
Quando essa cura não chega, o paciente passa então para a INTERIORIZAÇÃO, procurando ficar sozinho em silêncio, para pânico dos familiares que vêem nisto uma piora da doença. Mas ele está procurando rever a sua vida, buscando fechar os “negócios” que porventura tenha deixado abertos, terminar aquilo que deixara pela metade. Nesta fase pode haver crises de choro, de risos ou simplesmente de absoluto mutismo. Muitos se acercam desse paciente conversando sem parar, como se deixá-lo em silêncio servisse apenas para agravar o seu quadro.
No entanto, a melhor atitude é estar próximo e em silêncio, numa verdadeira disponibilidade para atendê-lo no que ele necessitar e não no que cada um acha que será bom para ele. Freqüentemente nossa “disponibilidade” é apenas uma manifestação de nossa vaidade de dizer “eu ajudo aos outros”,  quando na realidade estou apenas buscando ajudar a mim mesmo, reforçando minha auto-imagem de “caridoso e ajudador”. Estar disponível é um ato de vontade em que nos colocamos a serviço do outro, conforme a sua necessidade e a sua vontade e não em conformidade com a nossa própria.
Finalmente, superada a quarta fase, chega-se à última, a da ACEITAÇÃO. Aqui a pessoa completou o que poderia completar durante a interiorização, fez uma revisão de sua vida, tomou as atitudes que julgava necessário tomar - e que lhe eram possíveis tomar - e agora espera a evolução natural de sua doença. Esta fase de aceitação não é como muitos pensam, uma “entrega dos pontos”, uma forma de desistência. Muito pelo contrário é uma atitude totalmente consciente, onde não cessa jamais a ESPERANÇA e nem nos cabe, em nenhum momento, destruí-la. Mas não é uma esperança angustiada, onde a pessoa sofre se agarrando irracionalmente a tudo e a todos. Isto é mais compatível com a fase da raiva. Na aceitação existe uma enorme PAZ que se irradia para todos os que cercam quem nela se encontra. Não há desistência de tratamento, mas também não se faz coisas absurdas e inadequadas, na ânsia desesperada de cura. Quem se encontra nesta fase quando vem a morrer, o faz tranqüilamente, sem traumas para o que parte nem para os que ficam.
Vistas essas fases, é preciso ressaltar alguns pontos.
O primeiro, é que dificilmente a pessoa vai passar tão didaticamente pelas cinco fases. Muitas vezes elas se misturam, principalmente a negação e a raiva. Por vezes pessoas que chegaram até a interiorização, descobrem tantas coisas deixadas em aberto que acabam por voltar à raiva e com grande intensidade. Essas pessoas são as que mais necessitam de uma ajuda especializada, através de um Tanatoterapeuta.
Somente quem chega realmente na fase da aceitação, dela não mais irá sair, mesmo que sua doença seja curada. Isso porque, atingir esta fase representa uma experiência fundamental na vida da pessoa e o que nela se experiencia não se abandona mais.
Outro ponto que deve ser ressaltado é que, numa situação de doença, forma-se o triângulo de interação constituído pelo próprio paciente, pelos familiares e pelos profissionais de saúde. Todos os participantes deste triângulo irão vivenciar as fases. O único problema é que cada um tem o seu tempo e portanto, dificilmente todos estarão vivenciando a mesma fase. Daí o agravamento das relações entre eles, muitas vezes necessitando apoio de um Tanatoterapeuta para ajudá-lo neste momento.
Outro ponto é o fato de que, nem sempre todos os integrantes do triângulo, ou pelo menos o paciente, conseguem percorrer as cinco fases e chegar à última. Quando o paciente morre em alguma das fases anteriores, especialmente a da negação ou da raiva, esta morte se cerca de aspectos às vezes dolorosos e traumatizantes, especialmente para os que ficam. Esses traumas podem permanecer por longos anos, interferindo com a vida das pessoas e somente uma terapia apropriada poderá ajudá-las a superar esses sofrimentos residuais.
Portanto seria muito oportuno que todas as pessoas trabalhassem, em vida, seus medos e fantasias em relação à morte, buscando atingir a ACEITAÇÃO antes mesmo de se verem diante de uma doença terminal. Para isso basta lembrar que a própria vida, é um acontecimento terminal. Todos nós começamos a morrer no exato momento de nossa concepção. Portanto podemos trabalhar, desde já, a realidade de nossa morte. Somente assim estaremos em condição de viver a vida em plenitude, realizando totalmente o nosso sentido de vida. E com isso, melhorar infinitamente a qualidade de vida de toda a humanidade.
Para finalizar, é importante salientar-se que, ao contrário do que muitos pensam, tudo isso é uma lição contínua para a vida. Falávamos antes nas várias mortes psicológicas que vivemos a cada momento de nossas vidas. Se atentarmos para o que se passou conosco mesmo, quando experimentamos algumas destas mortes (perdas), iremos observar que as mesmas fases referidas acima foram vividas, no todo ou em parte. Se diante de uma perda significativa, tal como um relacionamento amoroso que se desfez, um emprego que perdemos, um acidente que sofremos ou um ente querido que morreu, caminhamos pela negação mas paramos na raiva - o que é bastante comum - certamente este fato estará até hoje, não importa quanto tempo ocorreu, marcando negativamente a nossa vida. Seja por atitudes que tomamos, seja por doenças como enxaquecas e gastrites que nos afligem. Trabalhando essas “mortes” a partir da fase em que ficamos estacionados de modo a chegar à aceitação, somente nos levará a crescimento e a eliminação de muitas de nossas mazelas quotidianas.
E, nesta mesma observação, encontraremos “mortes psicológicas”em que caminhamos por todas as fases até a aceitação e descobriremos o quanto aquele sofrimento, na época tão rejeitado, serviu para nosso crescimento, para uma mudança radical em nossas vidas, sempre para melhor.
Por tudo isto, podemos dizer que o sofrimento - quando sobrevém e não quando é voluntariamente procurado - nos leva a crescimento e a uma evolução importante.
Falar sobre a morte, refletir sobre a nossa finitude, deixa de ser “assunto mórbido” para se tornar em uma escola fundamental de vida. A morte deixa de ser a extinção do indivíduo para ser sua escola e seu verdadeiro nascimento.
Em nossa cultura é comum atribuir-se a morte à condição de velho. Morbidamente se define uma pessoa idosa como “alguém que está com o pé na cova”.
Por outro lado, acredita-se que o idoso aceita melhor a morte do que os jovens.  Segundo Kalish, isso seria porque  eles já teriam tido tempo suficiente para viver plenamente a vida; porque adquiriram maior experiência com eventos tanáticos durante a sua existência e isso lhes traria maior conforto diante da morte; e porque o idoso tende a considerar a sua  vida menos valiosa do que a dos jovens.
A isso somamos o medo que têm de uma invalidez extrema, de uma dependência à qual não estão acostumados e mesmo de um sofrimento intenso por doenças graves.
A observação de Kalish (in Corr,CA et Al. 1996) se prende a uma cultura anglo-saxônica, que não é a nossa. Das suas três motivações, especialmente a primeira acontece somente com uma minoria. Os idosos brasileiros nem sempre viveram plenamente a vida. E mesmo depois de uma justa aposentadoria, continuam trabalhando e com isso costumam se sentir mais valiosos do que os jovens, os quais muitas vezes pouco se dedicam a atividades produtivas.
Contudo, existem quatro necessidades básicas do idoso, segundo Cook e Oltjenbruns (in Corr, CA et Al. 1996) que são comuns, em qualquer sociedade: A primeira é de se ter  o sentido de si mesmo. Aquilo que chamamos de auto-estima. Quem traz de sua infância e juventude, uma história de constante auto-desvalorização, costuma carregar o mandato de “não seja feliz”. Ou pior ainda: “não mereço ser feliz”. E isso inferniza a sua vida, deixando-o extremamente frustrado quando descobre que os anos passaram e ele nada ou quase nada aproveitou de sua vida. Faz-se portanto necessário reforçar todos os pontos que aumentem a auto-estima do idoso, evitando-se, a todo custo, tocar pontos que sejam humilhantes para eles ou que lhes causem recordações desconfortáveis.
A segunda, é a necessidade de participar das decisões relativas à sua vida e à sua doença. Pois temos uma tendência a considerar o idoso como incapaz de tomar decisões adequadas e muitas vezes nos metemos a fazer isso por eles. Desvalorizando-os e desrespeitando-os. É preciso compreender que todas as pessoas, mesmo aquelas com algum grau de alienação, podem e devem tomar parte nas decisões que envolvem a sua condição de vida. Que dizer então dos que são plenamente capazes e conscientes?
Isso nos reporta ao primeiro achado de Kubler-Ross, quando abordamos a questão do direito e do dever das pessoas saberem sobre sua vida, sua doença e até sobre a sua morte.
A terceira necessidade é de fazê-los ter a certeza de que a sua vida, por mais frágil que por mais inútil que pareça ser,  ainda tem muito valor para os seus familiares.  Afinal, sem nossos ancestrais, quem seríamos nós? Nem sequer seríamos!
E a última necessidade é a de ter  tratamento médico e assistência adequados. Coisa que em nosso meio, lamentavelmente são pouquíssimos os que a têm atendida. Nem o Estado, nem a família, proporcionam ao idoso tudo aquilo que eles deveriam ter, depois de tantos anos lutando para construir o mundo do qual usufruímos. 
Finalmente é necessário que se tenha em mente as dificuldades do idoso, com relação à morte.  Eles estão mais vulneráveis a situações difíceis de serem totalmente compreendidas pelos jovens, tais como a morte do cônjuge, companheiro ou companheira de muitos anos. E também de amigos próximos, que os reportam a uma proximidade da própria morte, além da solidão em que lentamente vão mergulhando com a perda de seus companheiros de mesma faixa etária.
Outra situação bastante dolorosa é quando a lei natural das coisas se inverte, e um idoso se vê obrigado a enterrar um filho ou um neto.  Afinal, cabe aos filhos enterrarem seus pais e não o oposto.
A isso se soma a condição de desamparo quando o filho que morre é aquele que o sustentava ou dele cuidava.
E não se pode esquecer que os idosos vivem sob o medo de perdas materiais significativas. Muitos passam a vida ajuntando para uma aposentadoria tranqüila e, subitamente se vêm privados de grande parte ou de tudo que guardaram para esse fim.
Portanto, a morte para os idosos não representa alguma coisa líquida e certa, tranqüila e  aceita sem traumas como alguns pensam. É necessário assistir ao idoso de modo correto no que diz respeito aos seus medos e angustias, bem consciente das causas desses medos. Sempre tendo em mente que, os jovens de hoje serão os idosos de amanhã.

Conseqüência de nossa cultura, a morte é apavorante para jovens e idosos. Daí a importância do trabalho da Tanatologia, buscando aliviar, pelo menos nesse setor, as tensões tão próprias de nossa sociedade.
Para isso, será importante refletirmos numa estória que nos conta sobre um imaginário diálogo com uma criança dentro do útero materno, às vésperas do parto:

“Olá criança, como vai? Que tal sua vida aqui neste mundo intra-uterino?”
“Muito boa! Estou tranqüilo, sou bem alimentado, protegido, não tenho maiores preocupações.”
“E o que você acha da idéia de nascer? Você sabe que, daqui a algum tempo, você irá deixar este mundo uterino e nascer para um mundo muito maior e melhor, cheio de luz e espaço para o seu crescimento?”
“Ora deixa de bobagem! Que assunto mórbido! Quem disse que existe outro mundo lá fora? O importante é viver aqui, sem pensar em mais nada! Não quero falar disso!”
E então sairemos desanimados já que não foi possível falar mais nada. Passados alguns dias, vem o trabalho de parto, o útero contrai daqui e dali, a criança vê que não há mais jeito de ficar acomodada como estava, entra pelo túnel vaginal e nasce para um mundo maior e melhor, mais cheio de luz e de oportunidades para crescimento.
Perguntamos: Quem sabe também nós não estamos neste grande útero do Universo, decididos a viver aqui sem pensar em “coisas mórbidas”que se referem a uma vida depois da vida e, num determinado dia vem o nosso trabalho de parto e acabaremos por nascer para uma nova e definitiva vida, muito maior e melhor do que esta a que tanto somos apegados!


BIBLIOGRAFIA SUGERIDA

LIVROS DO PROF. EVALDO D´ASSUMPÇÃO:

1) Morte e Suicídio – (Coordenador) – Ed. Vozes,Petrópolis,RJ 1984 (Esgotado)
2) Sobre o viver e o morrer (2ª ed. ampliada) - Ed. Vozes, Petrópolis,RJ 2010
             (Este livro veio substituir o esgotado "Os que partem, os que ficam", contudo totalmente revisto e ampliado)
3) O sentido da vida e da morte – 3ª. ed. – Ed. O Recado, São Paulo 1991
4) Por que sofro se procuro ser bom? – Ed. O Recado, SP  1996
5) Transcomunicação – A comunicação com os mortos e a parapsicologia – 2ª.   ed. – Ed. O Recado, SP 1996
6) A equipe cirúrgica e o paciente – Algumas sugestões para um comportamento ético – Ed. Cirplast, Belo Horizonte, 2000
7) Dizendo Adeus – 8ª. ed. – Ed. Fumarc, Belo Horizonte 2011
8) Tanatologia – Ciência da Vida e da Morte  – Vol. 01 da coleção Biotanatologia e Bioética – Fumarc, Belo Horizonte 2002
9) Bioética e Cidadania – Vol. 02 da coleção Biotanatologia e Bioética – Fumarc, Belo Horizonte 2002
10) Morrer. E depois? – Vol. 03 da coleção Biotanatologia e Bioética – Fumarc, Belo     Horizonte     2002
11) Grupo de Suporte ao Luto  - GSuL – Ed. Paulinas, SP 2003
12) Suicídio – Vol. 04 da coleção Biotanatologia e Bioética – Fumarc, Belo Horizonte  2004
13) Convivendo com Perdas e Ganhos – Vol. 05 da coleção Biotanatologia e Bioética – Fumarc, Belo Horizonte  2004
14) Biotanatologia e Bioética – Ed. Paulinas, SP  2005
15) A Criança e a Morte - Vol. 06 da coleção Biotanatologia e Bioética – Fumarc, Belo Horizonte  2006
16) O Idoso diante da vida e da morte – Vol. 07 da coleção Biotanatologia e Bioética – Fumarc, Belo Horizonte  2006
17) Auto-Imagem e Auto-Estima - Vol. 08 da coleção Biotanatologia e Bioética – Fumarc, Belo Horizonte  2006
18) Em busca de Si mesmo - Vol. 09 da coleção Biotanatologia e Bioética – Fumarc, Belo Horizonte  2006
19) Morte e Espiritualidade – Ed. Cirplast – Belo Horizonte, 2006
20) O infortúnio entrou em minha casa – Ed. Fênix, Belo Horizonte, 2007
21) Princípios básicos para o atendimento em catástrofes -Vol 10 da coleção Biotanatologia e Bioética - Ed. Fumarc, Belo Horizonte 2011

LIVROS DE OUTROS AUTORES:

1.     Alvarez,A – O Deus selvagem – Um estudo do suicídio – Ed. Comp. das Letras, SP 1999
2.      Áries, P - O Homem diante da morte – Ed. Francisco Alves, RJ 1977
3.     Áries, P - História da morte no Ocidente –– Ediouro, RJ 2002
4.     Bertachini, L e Pessini, L – Encanto e responsabilidade no cuidado da vida – Ed. Paulinas, SP 2011
5.     Bayard, JP - Sentido oculto dos ritos mortuários – Paulus, SP 1996
6.     Blank, R. J. - Viver sem o Temor da Morte - Ed.Paulinas, SP 1984
7.     Blank, R. J. - Reencarnação ou Ressurreição - Ed. Paulus, SP 1995
8.     Blank,R. J. - Escatologia da Pessoa - Ed. Paulus, SP 2.000
9.     Boff,L. - Vida para além da morte - 4a.ed. - Ed. Vozes, Petrópolis 1973
10.    Boff,L. - A ressurreição de Cristo, a nossa ressurreição na morte - 3a. ed. -Ed. Vozes, Petrópolis 1974
11.   Boros,L. - Nós somos futuro - Ed. Loyola, SP 1971
12.   Bowker, J. - Os sentidos da morte – Paulus, SP 1995
13.    Bowker, J. – Para entender as religiões – Ed. Ática, SP 1997
14.   Bromberg, MHPF – A Psicoterapia em situações de perdas e luto – Ed. Livro Pleno, SP 2000
15.   Cassorla, RMS – Da Morte – Estudos brasileiros – Papirus Editora, Campinas 1991
16.   Chauchard,P et al. – A sobrevivência depois da morte – Difusão Européia do Livro, SP 1969
17.   Corr, CA et col.- Death & Dying, Life & Living –– Thomson Publishing Inc. 1997
18.    Dethlefsen,T e Daklke,R.- A doença como caminho – Ed. Cultrux, SP 2000
19.   Johnson, CJ & McGee, MG – How different religions view death and afterlife –The Charles Press, Publishers, Philadepphia 1991
20.   Franco, MHP – Uma Jornada sobre o Luto – Ed. Livro Pleno, Campinas,SP 200
21.   Franco, MHP – Estudos avançados sobre o luto – Ed.; Livro Pleno, SP 2002
22.    Hennezel, M e Leloup,JY – A arte de morrer – Ed. Vozes, Petrópolis 1999
23.   Kardec, A. – O que é o Espiritismo – Ed. Pensamento, SP
24.   Kastenbaum,R e Aisenberg,R – Psicologia da Morte – Ed. Da USP, SP 1983
25.   Kübler-Ross,E – Sobre a morte e o morrer – Ed. Martins Fontes, SP 1994
26.   Kübler-Ross, E – Morte, estágio final da evolução - Ed. Nova Era, Rio de Janeiro 1996
27.   Kübler-Ross,E – A Roda da Vida – Ed.Sextante, RJ 1998
28.   Langaney,A & col – A mais bela história do homem – Difel, RJ 2002
29.   Lins,GL – A ajuda nos momentos de crise – Ed. Cultura, Belo Horizonte 1998
30.   Parkers, CM. Luto - Estudos sobre a perda na vida adulta -Summus Editorial - São Paulo, 1998
31.   Rando, Therese A. - Grief, Dying, and Death –– Research Press Company, Illinois 1984
32.   Robillard, E. – Reencarnação – sonho ou realidade – Ed. Paulinas, SP 1984
33.   Sasaki, R – O outro lado do espiritualismo moderno – Ed. Vozes, Petrópolis 1995
34.   Simonton,O.C et al. – Com a vida de novo – Summus Editorial – SP 1987
35.   Tavares, GR – Do luto à luta – Ed. Pessoal - Belo Horizonte, 2001
36.   Tepperwein,K. – O que a doença quer dizer– Ed.Ground SP 2002
37.   Torres, WC – O conceito de morte na criança – Arq bras Psicol 31(4)9-34 1979
38.   Torres,WC – O Desenvolvimento cognitivo e a aquisição do conceito de morte em crianças de diferentes condições sócio- experimentais – Tese de Pós-Graduação – Fac. De Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas,SP 1996
39.   Worden,JW. – Terapia do Luto - 2a.ed. - Artes Médicas - Porto Alegre,RS 1998
40.   Xavier, FC – Nosso Lar – Ed. da Fed. Espírita Brasileira, 2003
41.   O livro dos mortos do antigo Egito – Hemus Ed. SP 1994
42.   Livro Tibetano dos mortos – Bardo Todol - Ed. Cátedra, RJ 1972
43.   Zaidhaft,S – Morte e formação médica – Ed. Francisco Alves, RJ 1990